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O Indiana Jonas de meia tigela (de manteiga!)

O meu marido tem um instinto arqueológico... subtil, é certo, mas está lá!
E como se manifesta? Num lustroso e lúbrico pacote de manteiga.

É que insiste em ir esgaravatando a pasta, dia após dia, até deixar um buraco bem no meio da dita, tornando impossível aquele deslizar que se vê na publicidade e toda a gente quer repetir em casa. Aquele deslizar da faca de uma ponta a outra da embalagem. É por isso que os pacotes são achatados e alongados, gente! Só por isso, para usufruirmos daquele deslizar e sentirmos a suavidade de 10 gramas de gordura pura que vamos esfregar no pão (o meu marido usa muito mais que isso, mas é porque ele gosta de pão demolhado). Porque tudo o que fica alojado durante 30 anos nas coxas e na barriga (e nas artérias) é assim: lindo, suave (ok, as batatas fritas não são suaves mas são crocantes, que vai dar ao mesmo... e as pipocas também) e delicioso até ao absurdo.

Voltando atrás, gostava de perceber o que é que ele espera encontrar no fundo da embalagem de manteiga. Não há tazos, nem vales de desconto, nem ovos de dinossauro.
Mas vá, nem tudo é negativo. Suspeito que as brincadeiras na praia com o nosso "piqueno" vão incluir muitas escavações. E com isso, pode ser que dê uma folga à manteiga.
Isto não soa nada bem...

Cheira-me que a moda não se fica por aqui

Estava eu, aparvalhada porque eram 7 e meia da manhã, a ver Baby TV, enquanto o meu filho brincava com puzzles, escumadeiras e latas de atum (daquelas grandes, de 900g, que têm tampa de plástico e que eu reutilizo para guardar as peças dos puzzles, que é o máximo que consigo fazer de bricolagem/reciclagem/diy), quando começa todo um sofisticado videoclip com a música "Jardim da Celeste".

Até aqui, aceitável, tendo em conta o facto de estar com um pijama em que a camisola estava descoordenada dos calções (os calções correctos devem estar enfiados no cesto da roupa para engomar; a bem dizer, eu não tenho um cesto, tenho um poço de roupa para passar a ferro!).
A questão é que a letra foi totalmente desvirtuada e subvertida!
Começa então a lengalenga com "eu fui ao jardim da ANA, giroflé, giroflá!"
Eu que ainda estava em jejum, quedei-me emocionalmente abalada.



Sobrevivi, com muita mágoa, ao aviltamento dos Estrumpfes (aka, para mal dos meus pecados, Smurfs, que mais parece um grunhido de desprezo neandertaliano); seguiu-se a desonra da Anita (que ela mudasse o apelido porque se tinha casado entretanto até aceitava, agora "Martine"...) e aí eu pensei "mau, Maria, à terceira vira moda!". Pumba, vem o golpe de misericórdia à Celeste.



Nós, pais, já sabemos que temos que enfrentar o hiato geracional na terrível adolescência dos nossos filhos (felizmente ainda muito longínquo para mim!) e tentar chegar até eles transpondo esse obstáculo a que chamam os mais sofisticados de "generation gap" com a ginástica do Indiana Jones e as artimanhas do MacGyver (vá, esses não mudaram de nome... ainda!). Agora querem antecipar isso com comportamentos destes. Porque nós, que já começamos a ficar rezingões e jarretas e a opormo-nos a algumas modernices porque "no nosso tempo é que era", ficamos com o papel que nem a Rita Pereira quer representar do velho do Restelo. E os miúdos ficam a olhar para nós, em estase. "Estrum-quê? Quem é a Anita? Deve ser a vizinha de cima, a quem o pai piscou o olho, no outro dia. Acho que é estudante universitária, relações públicas ou lá o que é. E a Celeste deve ser a senhora que lava as escadas do prédio..."

A sério, vão mesmo dar-me esse papel, a mim que tenho uma criança pequena nos braços para criar? E que instinto de travestismo é esse, gente? Lá porque a lei permite não vamos todos a correr à conservatória aos 18 anos mudar o nome. E se sim, pelo menos consultem os venezuelanos. Esses é que sabem engendrar nomes com pompa e fausto, basta ver as novelas deles.
Já sei. Menos, Vanessa, menos...

Por favor, alguém que me explique...

... porque é que o meu filho raspa os sinais do meu pescoço, com a mesma avidez com que um reformado "papa" raspadinhas na Casa da Sorte?

Há que anos saí da casca e agora isto!

(foto)

Se houve herança que os meus pais me deixaram (ainda em vida, felizmente!) por osmose foi o gosto pela fruta. Sempre se comeu muita fruta em casa, de todos os tamanhos e arredondamentos!
O meu pai era menino para comer duas maçãs, depois de lauto jantar mas, a dada altura, acometeu-o uma certa preguiça selectiva: comprava daquelas romãs de Israel (isto não é snobismo mas há fruta "de marca" que não tem paralelo nas variedades das massas) mas descascá-las era outra conversa.
Comecei a reparar que, enquanto eu descascava pacientemente uma romã (sim, sei que há métodos mais rápidos, que circulam pelo youtube, mas que exigem que se cortem alguns bagos, o que para mim é puro sacrilégio), ele dizia sempre "dá cá um bocado". Se fosse de quando em vez, passava, mas fazia-o sempre que eu comia uma romã e deixei de o ver a descascar uma que fosse. Comecei a chatear-me com isso (parvoíce, eu sei) e deixei de comer romã na presença de segundos e terceiros.

Estava eu resolvida com a questão da fruta e agora que tenho um filho, descasco a minha e a dele. Ora, isto somado, dia após dia, começa a acamar camada sobre camada de nervos! Descascar fruta de três em três horas é redundante, sim, o mais possível.

Já nem tenho mais pachorra para descascar romãs com todo ritual de há uns anos. Da última vez que o meu marido me comprou romãs, tive a indelicadeza de deixar secar três.
Isso faz de mim uma ingrata preguiçosa? Não. Acho que tudo isto é uma alergia congénita à monotonia e à rotina de que as crianças tanto precisam.

E depois há outra questão: a da casca! Grande parte dos antioxidantes e vitaminas estão precisamente na casca. Por causa da porcaria com que insistem em contaminar a fruta, de cada vez que descasco uma maçã, estou a deitar o melhor fora! A vida podia ser tão mais simples...

Mas porque é que ninguém fala disto? Avisaram-me de algumas frustrações que podia sentir com a maternidade mas nunca me falaram da carga de fruta que tinha de descascar pela frente. Irra!